Arcano VIII - A Justiça

Posted by Jorge Puente Marcadores:


A Justiça que tem os olhos abertos

Diferente do que podemos pensar, a Justiça do Tarot não está necessariamente relacionada à justiça humana. Tem vezes que ela pode indicar problemas de ordem legal ou situações onde o consulente pode esperar que certa ação seja recompensada ou castigada, mas a maior parte das vezes tem um significado mais profundo. A Justiça trabalha com o equilíbrio das situações, com o poder de ordenar que a mente possui. Segundo a autora do Tarot Mitológico, ela é representada por Atena, deusa da Justiça, a deusa filha de Zeus. Segundo a autora “o julgamento de Atena não tem por base o sentimento pessoal, mas a avaliação objetiva de todos os fatores contidos numa situação”. É muito engraçado que quando vemos alguma situação que nos indigna no dia-a-dia e pedimos “justiça”, normalmente estamos num estado profundamente emocional. E a “justiça” neste caso implica a satisfação da nossa revolta emocional. Queremos que os “culpados” sejam “castigados” e rapidamente, de preferência. Sentimo-nos profundamente envolvidos, mas esse envolvimento é emocional. Emocional. Ou seja, o contrário à definição que vimos da Justiça.
Os antigos gregos eram conscientes dos perigos do julgamento emocional, por isso criaram o arquétipo de Atena. Ela avaliava com equanimidade, com a mente e não com o coração. Ela levava em conta todos os fatores antes de dar o veredito. Isso é difícil, pois na maior parte das vezes estamos envolvidos em um ou outro lado da disputa, e é difícil ser imparciais nesse caso.
Vamos ampliar mais um pouco a definição da Justiça? Segundo Sallie Nichols, ela está relacionada também ao equilíbrio e à compensação. Segundo ela não existe uma retribuição perfeita, mas uma compensação pelo dano sofrido. Ou seja, mesmo quando um juiz falha ao nosso favor, ele não pode nos devolver aquilo que a outra pessoa tirou de nós. Vamos receber uma “compensação”, mas nunca uma restituição 100% do que perdemos. Isso é insatisfatório, não é? Deixa um gostinho amargo no fundo da boca. Ganhamos, mas a vitória não é doce...
Só isso? Vamos receber algo, mas nunca o que perdemos? Paramos por ai?

Não, vamos aprofundar o tema (senão fica frustrante, certo?). Bem, a Justiça também está relacionada à Harmonia. Como assim? Bem, na antiguidade não existia o conceito de “oposto”. Oposto significava simplesmente “que estava enfrente”. Por exemplo, a parede norte é “oposta” a parede sul de um cômodo, mas as duas são necessárias para sustentar o teto. Os antigos gregos e egípcios entendiam a dualidade como um complemento. O dia seguia à noite e esta ao dia. A enchente do Nilo acabava e seguia a seca e logo outra enchente. Na Europa, as estações alternavam-se. Frio e calor, luz e escuridão, tudo era complementar. A dualidade era tomada como um complemento, não como uma oposição. A ideia do ciclo era poderosa. Num famoso mito grego, quando Apolo cede o carro do Sol para seu filho Faeton e este perde o controle, ameaçando destruir a Terra, Zeus destrói a Faeton. Ele não destrói o rapaz por ira ou vingança, mas para restabelecer o equilíbrio. Ele não faz “justiça” no sentido atual (como um castigo), mas ele “ajusta” o que está desajustado, devolvendo a Harmonia ao sistema Céu – Terra. Então agora temos mais uma definição para a Justiça: Harmonização. Por isso no Tarot de Crowley a carta da Justiça chama-se “Ajuste” e ao observar a carta sentimos certa frialdade emanando dela. Talvez não seja frialdade, mas ausência de emoções. A Justiça de Crowley “ajusta” as situações, coloca as coisas no seu devido lugar, sem sentimentalismos.
Ao estudar a carta vemos que tudo é equilibrado nela (realmente ela é bem diferente das representações tradicionais da Justiça nos outros baralhos). Tudo é dual e tudo está equilibrado!

E tudo isso afeta você de que jeito? Bem, quando a Justiça aparecer numa tiragem de tarô, é hora de começar a avaliar todos os elementos do problema. Pense profundamente qual é seu papel e o papel dos outros. Tente deixar de lado a parte emocional (eu sei, é difícil, muito difícil, mas faz um esforço...) e volte a ver o problema desde uma perspectiva imparcial e objetiva. A pergunta que pode surgir nesse caso é: será que continuo lutando ou é o momento de parar? E se for ao contrário? Você pode enfrentar uma situação e colocar ordem nela, mesmo sendo desagradável? Você pode ser a mão equilibradora da justiça, mesmo ficando como uma pessoa chata ou ruim na frente dos outros? O que é mais difícil para você, sair de uma briga ou entrar em uma?
Aceitar a Justiça, o Ajuste, sempre vai exigir de você uma grande honestidade intelectual, saber reconhecer o que está “certo” e o que está “errado” em uma determinada situação. O pensamento claro e sem emoções é indispensável aqui. Ou quase. Lembre-se sempre de colocar uma pitada de amor no seu julgamento. No antigo Egito, a Deusa da Justiça era Maat e ela estava sempre sorrindo, pois entendia os conflitos como situações a serem equilibradas e só isso. Ela não repartia castigos, só lições que, se aprendidas, nos poupariam futuras dores.
Tente tomar a decisão correta, que geralmente é a mais difícil. No final, a Justiça vai ficar grata com você... e o resto dos envolvidos também!

Imagens:
- A Justiça (Tarot Mitológico): Atena com os símbolos tradicionais e a coruja, um antigo símbolo de sabedoria.
- A Justiça (Tarot da Eternidade): A Justiça como mediadora
- O Ajuste (Tarot Thot - Crowley): A figura é claramente simétrica mostrando como o conflito na parte inferior transforma-se em harmonia na parte superior da carta através da ação da Justiça.


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