Arcano XVI - A Torre

Posted by Jorge Puente Marcadores:

Caminhava por uma paisagem verde e viçosa, cheia de flores. O sol aquecia suavemente e o mundo parecia belo e seguro. De repente vi um movimento um pouco mais à frente. Como não estava seguindo um rumo fixo, decidi ir ver o que estava acontecendo.
Umas pessoas estavam trabalhando, muito concentradas. Levantavam algo que parecia uma torre. Aproximei-me deles e comecei a conversar com um homem que usava capuz.
-O que é que vocês estão fazendo? –quis saber. Ele olhou para mim, estranhado. Não dava para ver o rosto, só os olhos.
-Construindo uma torre, é claro- disse.
-Para que? –quis saber. Ele pareceu alarmado.
-Para me defender, é claro! Você está fora da sua torre, não tem medo de ser atacado ou de sofrer um acidente?
Olhei em volta, aquela paisagem linda e tranqüila. De que era que o homem estava falando?
-Quem vai me atacar aqui?
-Qualquer um! Você não percebe que está em perigo? Alguém pode nos atacar. Tenho que seguir construindo...
Continuou a trabalhar. Observei que os tijolos iam surgindo do nada e se empilhando no centro da construção. Eles estavam construindo desde dentro. E ficariam presos, com certeza, ao terminar a obra. Decidi avisar do fato.
-Este... não seria bom ter uma porta?
_Uma porta! –resmungou ele- Para que? Para os inimigos entrarem? Sem portas e com janelas estreitas, do tipo que não deixam passar ninguém!
-Mas vocês vão perder a visão da paisagem... e não vão poder sair da torre para passear ou visitar outras pessoas...
-Quem se preocupa com passear ou ver a paisagem quando está sob ataque? –disse ele furioso – E para que vamos visitar alguém? Somos auto suficientes!
Os materiais de construção continuavam surgindo do nada no centro da torre. O poder de criação deles era inegável, mesmo que estivesse sendo usado de jeito errado. Tentei mais uma aproximação.
-Mas quem foi que orientou vocês a construir esta torre?
As respostas foram imediatas.
-Um homem velho– disse meu interlocutor.
-Uma moça bonita e rica – disse outro homem.
-Um guerreiro valente que passou por aqui e nos alertou– disse uma moça.
-Foi num sonho– disse um ancião.
Comecei a entender o que estava acontecendo. Todos eles tinham visto algo igual, que parecia diferente para cada um. Decidi continuar com minhas perguntas.
-Mas de onde é que vocês tiram o material?
-Como que de onde? –disse meu interlocutor, irritado- Você não vê que ele está sendo entregue a toda hora? É caríssimo. Estamos pagando uma fortuna por ele, mal da para comer com esse gasto!
-Mas ele parece surgir do nada, no centro da torre– disse eu, calmamente. O cara olhou para mim com cara de espanto.
-Você é louco? Não vê as pessoas trazendo o material para nós? Olha a fileira de caras carregando tijolos e passando por cima do muro!
Olhei e não tinha nada disso. Era claro que ele via algo que não correspondia à realidade. Enquanto isso os tijolos e outros materiais continuavam a surgir no centro da torre.
-Cada vez é mais difícil para ele entregar o material– disse meu interlocutor-. Para quando a gente estiver no topo, vai custar uma fortuna... mas vai valer a pena. Sem contar que, desde a torre, podemos controlar tudo!
-Tudo?
-Tudo– disse ele, satisfeito-. Incluindo você.
-Vocês vão se afastar das outras pessoas...
-Isso não interessa– respondeu ele com desprezo-. O importante é a segurança e o poder. E deixe que te explique algo– disse, baixando a voz-. Estou trabalhando com eles porque não posso fazer isto sozinho por enquanto. Mas assim que meu poder aumentar, vou mandar eles tomar banho e construir minha própria torre... ou expulsar eles desta e pegá-la pra mim!
Ao se aproximar consegui ver seu rosto. Era meu irmão, ao qual eu não via há muito tempo.
-Adão– disse eu com calma-, você sabe quem sou eu?
-Não sei nem me importa– respondeu ele com dureza-. Tenho que terminar a torre. Tenho que me proteger. Tenho que obter poder. Isso é o que importa.
-Você já tem todo o poder que precisa– tentei dizer, mas ele cortou em seco.
-Me deixe trabalhar em paz, maluco! Estou trabalhando para ter poder... e vou ter um dia! E vou pisar em todos! E agora me deixe trabalhar em paz. Caso você não viu, tem inimigos se aproximando. Veja no horizonte o brilho das fogueiras do exército que se aproxima! Só temos esta noite para terminar nossa fortaleza... Vai embora! –gritou. Virando as costas, voltou ao trabalho.
Olhei o sol no alto, senti a brisa suave no rosto. Era claro que não era isso que eles viam. No mundo deles era de noite e os inimigos se aproximavam. Aliás, todos eram inimigos, o que variava era o grau de inimizade. Com aqueles que estavam lá meu irmão conseguia conviver. Mas já estava pensando em passá-los para trás. Para ele, no fundo, aqueles que o ajudavam a construir a torre eram tão inimigos quanto o exército imaginário que acampava além do horizonte.
Afastei-me em silêncio e, por não ter outra coisa a fazer, fiquei um tempo observando o trabalho deles. A torre cresceu depressa, em meio de gritos, insultos e agressões. Presos no mundo de fantasia e ilusão do Diabo, eles não conseguiam ver o mundo real fora da torre. Não enxergavam o mundo maravilhoso e tranquilo que eu via, só viam inimigos por toda parte. Não conseguiam ver que eles mesmos produziam o material para a torre, até nisso eles negavam seu próprio poder.
A torre esteve finalmente terminada e logo eles começaram a apontar com armas desde as janelas. Não tinha mais a fazer por ai, assim que fui embora.
Durante um tempo me dediquei a construir um mundo novo para mim. Levantei prédios e realidades diferentes, compartilhei com muitos amigos. Resumindo, me diverti muito!
Mas uma parte de mim sabia que a hora do meu irmão estava próxima. Um dia fui passear até a torre. Estava formidável. Parecia ter crescido desde que fora terminada e agora estava cheia de canhões, aparelhos esquisitos, placas metálicas de reforço. Mas reparei também que tinha mato crescendo entre as juntas das pedras. A Natureza voltava pelo que era dela.
Desde longe ouvi os gritos e as ameaças. Passei a uma modalidade invisível e me sentei perto de torre. Aquele produto do medo tinha crescido em tamanho e malignidade. Sufocava só de olhar para ela. E eu sabia que não ia durar muito...
Sintonizei a energia deles. De repente a paisagem mudou. Tudo era árido, deserto, horrível. Dava para ouvir gritos e lamentações. No céu parecia estar se formando uma tormenta terrível. Os raios começaram a brilhar na escuridão. E de repente, um deles atingiu a torre.
A explosão foi imensa. Os pedaços da torre voaram em todas as direções. E então vi as pessoas caindo. As roupas agitadas pelo vento. Os símbolos do poder que tinham usado dentro da torre foram arrancados deles.
Chegaram ao chão pouco depois. Nenhum deles estava machucado fisicamente. Mentalmente era outra coisa. Os olhares estavam perdidos. Pareciam assustados e confusos. Olhavam um para outro com angústia. Em vão procuraram as coroas e cetros que usaram na torre: eles tinham sumido. Alguns começaram a chorar, outros rasgaram as roupas, outros caíram de joelhos, presas da desesperação. A cena era terrível... e inevitável. Ao construir aquela aberração e usar o próprio Poder Criador para se afastar das pessoas, eles tinham determinado sua própria destruição. O Raio de Deus tinha destruído o que nunca deveria ter sido construído, em primeiro lugar. Tal como o Diabo costumava dizer, a libertação por esse meio era brutal, no mínimo. Era melhor reconhecer a Divindade Interior e sair da ilusão da dualidade por si mesmo, e não deixar as coisas chegarem a um ponto onde a única solução era a destruição de tudo o que fora criado.
Aproximei-me do meu irmão e o ajudei a se incorporar. À nossa esquerda abriu-se então a paisagem verde e bela do meu mundo, enquanto à nossa direita se estendiam as trevas. Vi o Diabo, semi oculto nas trevas que rodeavam a torre destruída. Ele me cumprimentou e eu devolvi a saudação. Meu irmão olhou para mim e pareceu me reconhecer por vez primeira em muito tempo.
-Olá Miguel- disse com voz insegura.
-Olá Adão– respondi-. Quer ficar mais um pouco ou prefere ir embora?
Alguns companheiros dele aproximaram-se de nós. Outros começaram a se dirigir em direção ao Diabo.
-Acho que prefiro ir embora com você... –murmurou ele-.
-Que bom– disse eu-, pois nossa Mãe está morrendo de saudades de você...
Enquanto caminhávamos devagar, seguidos por alguns dos colegas dele, ele olhou para o céu.
-Por que ainda é noite? –perguntou.
Olhei para o céu também. O Sol estava no ponto mais alto.
-Porque você ainda não está curado–disse eu suavemente-. Ainda vai levar um tempinho para você chegar à luz. Mas você já começou o caminho.
Ele olhou para trás, para os restos da torre. Já tinha pessoas trabalhando nela.
-Vão voltar ficar presos dentro– lamentou meu irmão. Eu assenti.
-Até não reconhecerem seu próprio poder, eles vão ficar submetidos ao mundo de ilusões do Diabo. Até não compreenderem que o verdadeiro Poder se atinge com as pessoas e não usando as pessoas, vão continuar no mundo da ilusão, construindo torres, se defendendo, atacando, sofrendo e fazendo sofrer cada dia, cada minuto. E aprendendo com isso. E sofrendo os raios de Deus. Até se libertarem...
-Como você fez um dia... –disse ele. Eu assenti.
-Como você fez agora– respondi.
Seguimos em silêncio, caminhando com alegria, em direção á luz.

Imagens: 
1) A Torre - Tarô Rider-Waite
2) A Torre - Initiatory Golden Dawn tarot
3) A Torre - Tarô do Círculo Ancestral

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