Arcano XVII – A Estrela

Posted by Jorge Puente Marcadores:



Você acha que é fácil ter esperanças depois de ver ruir tudo à sua volta?


Depois de muito andar, o viageiro chegou finalmente à beira de um lago. Era noite ainda, uma noite longa, mas dava para enxergar como se fosse de dia.
O lago era bonito. Em parte a vegetação parecia seca e em parte era abundante e verde, cheia de vida.
-Quanto tempo durará esta longa noite? –pensou o viageiro.
Começou a caminhar pela beira da água e de repente deu de frente com uma visão incrível.
Uma jovem nua, belíssima, estava em pé dentro do lago, com as estrelas do céu formando uma coroa em volta dela. Totalmente compenetrada, derramava a água de dois recipientes, um de ouro e outro de prata, dentro do lago. O homem ficou olhando, surpreso. A água que brotava dos recipientes não acabava nunca.
Enquanto continuava a despejar a água dos jarros no lago, ela saiu e ficou ajoelhada à beira do lago. Continuou a derramar a água dos recipientes, agora um no lago e outro na terra. Seu rosto mostrava confiança e felicidade. Sem levantar os olhos, sorriu.
-Boa noite, viageiro- disse com voz doce.
Ele aproximou-se e sentou perto dela.
-O que é que você está fazendo? –quis saber.
-Derramo meu amor no mundo, como você pode ver...
-Mas essa água representa o amor? Parece que ela nunca acaba...
-E o amor acaba? –disse ela com um sorriso.
-De onde provém?
-De mim – ela disse, simplesmente-. Provém de mim.
-Como pode algo surgir do nada?
-Eu não disse que surgia do nada... disse que surgia de mim... –respondeu ela. Por primeira vez levantou os olhos e o fitou diretamente.
-A sua torre caiu há pouco tempo? –quis saber. Ele baixou os olhos.
-Sim – disse secamente.
-Os tijolos para construí-la... não surgiram de você?
Ele levantou os olhos, resignado.
-No momento, na ilusão, não percebia que era eu que os estava criando. pareciam vir de fora...
-Mas vinham de dentro de você. Porque você cria tudo a sua volta. Junto com todos nós.
Ele olhou a jovem, extasiado. Era lindíssima!
-Quem é você? –quis saber. Ela voltou a sorrir.
-Sou uma filha da Deusa, uma mulher que aprendeu que o poder de criação está em todos nós. Eu simplesmente aprendi a usar esse poder. A única diferença entre nós é que, quando você criava os tijolos da sua torre, não era consciente do seu poder. Eu crio a água conscientemente.
-É fácil? –perguntou o viageiro, curioso. O sorriso dela aumentou.
-É fácil respirar? Criar forma parte de nós. Somos os filhos de Deus, compartilhamos com ele o poder de criação... portanto, crie coisas bonitas...
-Mas por que derrama a água na água?
-O que é que eu faria com ela? Guardar para mim? Para a “pessoa certa”? Ao derramar o amor, produzo mais amor... ele não acaba nunca.
Ficaram um tempo em silêncio, o viageiro pensando nesse conceito tão esquisito. Dar amor sem pedir de volta. Mas parecia que funcionava, no final das contas a água não deixava de sair das jarras...
-Como posso sair desta noite eterna? –quis saber o viageiro, finalmente.
-Escolha entre as estrelas do céu – ela disse. Ele olhou. Tinha milhares, mas oito eram mais visíveis.
-Que são essas estrelas?
-Possibilidades... caminhos diferentes... escolha...
-Só uma?
-As que você quiser, mas uma por vez é melhor – ela sorriu.
-Posso ter todas?
-Claro. Mas por enquanto seria melhor que você escolhesse uma... e se concentrasse nela.
-A saída está nela?
-Se você escolher a saída é isso que terá. Muitas pessoas chegam aqui depois da queda das suas torres. Eles conseguiram fugir do Diabo, mas quando chega a hora de escolher, voltam a escolher coisas negativas.
-Por que elas fariam isso?
-Elas acham que estão fazendo o correto. Você não pode ir para a luz se não sabe reconhecê-la e separá-la da escuridão. Elas voltam para a escuridão, pensando que estão indo para a luz.
-Como é possível? Posso discernir a luz da escuridão – ele disse, irritado.
-Não, não pode – respondeu ela calmamente-. A sua mente não pode separar a luz da escuridão, porque trabalha com conceitos. A única forma de sair daqui é abandonar o que você sabe e aprender a reconhecer a verdadeira luz de Deus.
-Como?
-Você pode reconhecer o amor quando o vê? Se você pode, já tem o caminho. Escolha uma das estrelas e vai enfrente.
-E se eu não souber reconhecer o amor...?
-Você não sabe, se não, não perguntaria. Nesse caso o caminho é mais complicado... e mais interessante. Você vai aprender a reconhecer o amor, porque vai ser a única luz do seu caminho.
-Então, minhas opções são um pouco limitadas...
-Em absoluto – ela apoiou os jarros na grama. Com sua mão direita indicou um grupo de estrelas-. Você pode ir por ai, direto para a realidade que escolher. Ou...
-Qual é a outra opção? –perguntou o viageiro, sorrindo. Ela apontou em direção à estrela maior.
-Você pode ir por aí. Vai encontrar algo totalmente diferente, que no começo vai deixá-lo muito assustado... mas se persistir, vai achar o que está buscando.
-Que seria...
-Você. É isso que está buscando: a você mesmo. E essa é a magia deste momento: cada vez que você chega até a Estrela, pode escolher entre muitas possibilidades... mas também é um desses momentos mágicos em que você pode mudar de rumo e produzir uma vida completamente diferente, muito mais rica e vívida. A escolha é sua.
O viageiro olhou para as estrelas. Todas as opções... todas as fantasias... e uma saída para um mundo diferente, que não conhecia.
-Se eu seguir essa estrela terei companhia? –quis saber.
-Vai viajar sozinho... a prova é sua. Mas alguém o estará esperando no final, entre a multidão...
-Como vou reconhecer?
-Se você consegue passar pela noite da Lua e se apoiar no Amor da Mãe, vai reconhecer imediatamente uma de nós.
-Quem é você realmente?
-Sou uma filha da Deusa, uma Horae. Sou a irmã mais velha da Sacerdotisa que você conheceu tempo atrás. Ela te ensinou através do conhecimento da mente. Eu ensino através do Amor e da Intuição. Posso mostrar para você o caminho da nossa Mãe, aquele que realmente vai te tirar desta noite eterna.
Ficaram um momento em silêncio.
- Quanto tempo eu posso ficar com você? – quis saber o viageiro. Ela o olhou fixamente.
-O tempo que você quiser – disse suavemente-. Não tem pressa. Mas no final, vai ter que tomar o caminho escolhido...

Um tempo depois o viageiro tomou o caminho marcado pela estrela. À medida que se internava na nova paisagem, ouviu as palavras dela: “Lembre-se: meu amor vai te amparar no começo. Mas quando chegar ao coração do reino da nossa Mãe, só o amor dela vai te proteger. E se você conseguir passar eu estarei te aguardando do outro lado...”
“Todas as possibilidades – pensou ele, olhando para a Lua-. Vamos enfrente!
Internou-se na noite escura, num novo caminho, cheio de esperanças, guiado pelo brilho das estrelas...



Sabemos que “temos que dar a volta por cima”, temos que “mudar de rumo”, mas como podemos conseguir isso? A resposta é que temos que entrar em contato com nossa parte feminina interior, criativa e otimista. A carta da Estrela funciona como uma grande rotatória, com caminhos se abrindo em múltiplas direções. A partir dela, no plano espiritual, podemos escolher um caminho diferente do que estávamos trilhando. Ou podemos escolher continuar no mesmo. Depende de nós. A moça representa a filha da Deusa, porque neste estágio você não pode entrar em contato direto com as energias dela. Essas energias, neste momento, simplesmente queimariam você, porque ao mesmo tempo em que energizam seus pensamentos positivos, energizarão seus medos, os medos que ficaram depois da queda da Torre. Com o apoio da moça do lago, você vai aprender a ter esperança novamente. Deixe que ela ajude você a escolher um dos caminhos, com alegria e otimismo. Os caminhos representam as possibilidades na sua vida, e todos eles vão ter o apoio de Deus, porque Ele (ou Ela) jamais deixa de apoiar nossas escolhas. Mesmo as erradas.
Então, vamos escolher coisas bonitas?


Imagens: 

1) A Estrela - Tarô Iniciático da Golden Dawn
2) A Estrela - Tarô Arcus Arcanum
3) A Estrela - Tarô do Labirinto (do artista espanhol Luis Royo)



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