Arcano XVIII – A Lua

Posted by Jorge Puente Marcadores:

Caminhei e caminhei acompanhando a beira do lago. A paisagem foi se transformando, ou talvez eu fui me transformando. A beleza da paisagem foi sumindo e apareceu um lugar sombrio, só iluminado pela luz da Lua. À minha direita continuava a beira daquele lago sem fim, mas a minha esquerda começaram a se erguer áridas montanhas. Finalmente o meu caminho ficou obstruído: um morro estendia-se até o mar, cortando a praia. Ia ter que rodeá-lo por terra. Ai começou o problema.
Não bastando a escuridão, que produzia uma falta de orientação terrível, agora havia outras complicações: o único caminho era escuro, nas sombras, obstruído por mato. Estendia-se entre dois morros baixos e tinha uma torre a cada lado. “Mais torres” pensei. “Será que outros seres estão presos nas suas ilusões dentro delas?”
Mas isso não era o pior: entre o caminho e eu estavam um cão e um lobo. Até o momento não tinham olhado na minha direção, mas tinha certeza que, se eu tentasse avançar, eles que iam avançar em mim! O caminho estava bloqueado!
Sem esperanças, sentei-me à beira do lago. Que longe parecia a moça com a coroa de estrelas! Nunca ia alcançar o outro lado e, portanto, nunca a veria novamente...
Fiquei um tempo assim, abatido, só olhando. O lobo e o cão continuavam dando voltas e uivando de vez em quando. Olhavam para mim com desinteresse. Uma lagosta surgiu do lago e começou a se arrastar em direção ao caminho entre as torres. “Coitada” pensei “já, já vira jantar desses dois ai”.
A lagosta avançou devagar e aproximou-se do cão e do lobo. O cão começou a rosnar. O bichinho continuou seu percurso imutável. Parecia que nem estava vendo os dois inimigos. Passou no meio deles e perdeu-se nas sombras do caminho.
Continuei a olhar, maravilhado. Pouco depois vi um movimento na parte superior do caminho, entre as torres, e soube que era o bichinho. Tinha percorrido o caminho em um tempo incrivelmente curto! Pensei que podia fazer o mesmo e me aproximei dos guardiões. O cachorro rosnou e o lobo mostrou os dentes. Voltei para meu lugar rapidinho.
Fiquei lá, me perguntando se alguém dentro das torres poderia vir no meu auxílio.
“Não podem, não” – senti uma voz feminina. Olhei em volta, mas não tinha ninguém. Então...?
“Que é você?’ perguntei curioso.
“Sua Mãe”
De algum jeito sabia que ela não era minha mãe. Então, era quem?
“Sua Mãe Divina” ela disse, como lendo meu pensamento.
Fiquei confuso. As torres, o cão e o lobo, a lagosta... e agora...
“Como... por que você está falando comigo agora...?” quis saber.
“Por que agora e não antes?” disse ela com voz doce “Porque agora você me chamou...”
“Simples assim?” eu estava cético.
“Simples assim” disse ela “Os homens sempre chamam a mãe quando estão desesperados.”
“Nossas mães” respondi, já com saudades da minha, que tinha partido muito tempo atrás.
“Vocês chamam por mim. Elas são minha manifestação no Mundo. Tal como a donzela do lago é minha manifestação do Amor”.
“Onde você está?” não via ninguém. Ouvi um riso alegre.
“Justo enfrente a você!” ela parecia bem divertida. Olhei e não vi ninguém.
“Não estou vendo ninguém” disse confuso. Mais riso.
“O que você está vendo na sua frente?” perguntou ela.
“As torres... os cães... a Lua...”
“Bem, já achou” disse ela, e voltou a rir.
“A Lua? Você é a Lua?”
“Claro que não” respondeu a voz, ainda com tom divertido “A Lua é uma das minhas manifestações. Ordena seu mundo e o nutre.”
“Nutrir? É o Sol que dá vida ao meu mundo” discordei.
“O Sol da energia, mas só à noite as plantas e os animais incorporam essa energia e se aprontam para o dia seguinte. Os povos do deserto entendiam muito bem isto...”
“Agora eu também entendo. Mas você disse que eu a chamei porque estava desesperado...” eu não achava isso. Parado naquele lugar, sim. Mas desesperado?
“E não está? Consegue sair deste lugar?”
“Não” tive que reconhecer olhando para o cão e o lobo “Não consigo”
“Bem, então já chegamos a um ponto de acordo”
“Por que? Você pode me tirar daqui?”
“É claro! Na hora que você quiser. Basta pedir”
“Isso parece fala do Diabo” disse eu, desconfiado.
“Parece, não é?” respondeu ela com voz suave “À noite todos os gatos são pardos...”
“Então, como vou saber se você é a Deusa ou é o Diabo me iludindo?” quis saber.
“Ilusões, ilusões, ilusões...” disse ela com voz calma. “A moça do lago era uma ilusão?”
“Não, claro que não!” respondi com presteza.
“Como é que você sabe disso?” perguntou ela. “No final das contas, você está aqui por causa dela”.
Olhei a paisagem, os animais ameaçadores, a lua no céu hostil. Era verdade. Estava aqui pela moça do lago! Mas não podia ser! Aquela moça dizia a verdade! Ela não mentiria!
“Como é que você sabe disso?” ouvi sua voz. Fiquei arrepiado.
“Ela não me mentiria” disse eu.
“Como é que você sabe disso?” repetiu ela. Fiquei pensando. De repente, senti!
“Ela não me mentiria” repeti. “Jamais”.
“Você sentiu o Amor nela?”
“Sim” disse eu.
“Você consegue identificar isso em mim?” perguntou ela suavemente.
Entrei no meu coração e senti. Senti. Senti uma paz e uma tranquilidade que não sentia há muito tempo. Senti alegria. Senti calma e também um desejo de caminhar, de andar, de pular. Tudo junto. Deitei na grama úmida e relaxei, sorrindo.
“Oi Mãe” disse, fechando os olhos. Ouvi o riso dela.
“Olá meu querido. Você demorou em voltar...”
“A brincadeira estava divertida” respondi sem abrir os olhos. “Apanhei para caramba! Mas esteve ótimo...”
“Agora está na hora de fazer a tarefa de casa, não acha?”
“Mmmm... tem razão” disse, abrindo os olhos. “Por onde começamos?” quis saber.
“Onde você está?” perguntou ela.
“Nem idéia” respondi com sinceridade.
“Onde você está indo?”
“Também não sei” disse, incorporando-me. Parecia que tinha chegado a hora da seriedade. Basta de brincadeiras. Onde queria ir realmente?
“Quero sair da noite” disse eu, repentinamente. Era isso. Queria ir para algum lugar luminoso.
“Bem, já é algo” respondeu ela. “Sobre onde você está...?”
“Não faço idéia, Mãe. Você pode me ajudar nesse ponto?” sorri. Sentia como se tivesse sido pego fazendo arte, mas minha mãe não tivesse ficado brava, só divertida com a situação.
“Posso” disse ela. “Você está no reino da Lua, na sua mente. Nele, todas as direções são iguais e o seu conhecimento racional não serve. Até agora, para se orientar, você usou a luz do sol. A sua mente sempre lhe disse para onde ir e o que fazer, e você achou que isso era suficiente. Acostumou-se durante anos a usar só a mente e perdeu o contato com a sua intuição. Ela teria te avisado que a Torre era uma ilusão. Aliás, ela tentou te avisar, mas você não a ouviu”.
“Entendi” de repente, um pensamento terrível passou pela minha mente. “Mãe, estou morto?” perguntei, agoniado.
“O que te faz pensar isso?” ela parecia muito divertida com minha pergunta.
“Isto parece com certas descrições que ouvi de um lugar chamado Umbral...”
“Você está vivo, muito vivo. Aliás, você não pode morrer, pois é imortal, não sabe disso? Mas entendi sua pergunta e vou fazer minha resposta mais precisa: você ainda está encarnado. Não “morreu”. Simplesmente está preso no mundo noturno da Lua, com suas armadilhas e temores.
“Onde eu estou, realmente?” quis saber.
“Realmente, você está aqui” disse ela, suavemente, terrivelmente. “Entendeu? Seu corpo pode estar numa cama ou num sofá e você vai ‘acordar’ daqui a pouco, pensando que isto é um sonho. Mas esta é a realidade que vai se projetar na sua vida. Desde aqui você controla sua vida quando acha que está acordado...”
“E então, na minha vida, não consigo avançar...”
“Precisamente” disse ela. “Com todo seu conhecimento, que é enorme, você não consegue avançar. Seus medos deixam você atado a este lugar e esta escuridão se espalha na sua vida material e na vida das pessoas que o rodeiam...”
“E a saída?” quis saber.
“Detrás dessas torres, que simbolizam tanto a fantasia dos outros quanto a saída do útero materno.”
Era verdade. Aquela escuridão assustava, mas com a presença dela o aconchego era total e nem dava vontade de enfrentar os cães para sair dali. Comecei a entender o que sentia no útero da minha mãe.
“Posso ficar aqui?”
“O tempo que você quiser” disse ela com doçura. “Mas não seria uma boa mãe se não te avisar que...”
“...durante o tempo que estiver aqui, não vou crescer. Nada vai mudar”.
“Exato. Sua vida ficará nesta escuridão e falta de perspectivas por muito tempo...”
Fiquei pensando um pouco. De repente, algo brilhou na minha mente.
“A moça do lago... ela está do outro lado das torres?”
“Sim”
“Mas ela estava na escuridão também...” fiquei confuso.
“Engano seu” disse minha Mãe. “Ela estava na luz. Você estava na escuridão e só viu escuridão em volta dela”.
“Mas se ela está na luz, por que ela não pode iluminar?”
“Pode, mas não é a função dela. Este é seu momento, meu filho. Só você pode passar através dessas montanhas e das torres. Ela não pode fazer isso por você. Ela nunca tiraria essa oportunidade de você crescer e se iluminar pelos seus próprios méritos, de criar sua própria força”.
“E os animais ai?” pergunte, olhando em direção ao cão e o lobo.
“Os guardiões da saída. Despedaçarão qualquer ser temeroso que se aproxime deles...”
“Então nunca vou conseguir sair daqui!” exclamei, desanimado.
“Você ouviu o que eu disse?” perguntou ela com calma. “Qualquer ser temeroso. Você não viu a lagosta passar entre eles?”
“Vi. Que ser era esse? Era uma lagosta de verdade?”
“Claro que não, meu lindo” ela riu, genuinamente divertida “É uma representação da sua intuição. Ela não conhece o medo, pois ela está em contato comigo... Ela estava mostrando o caminho para você, só que você não pôde vê-lo, pois ainda estava no mundo da mente...”
“Então a saída não está na parte racional”
“Nunca está. A parte racional não tem contato comigo. Ela é ótima para avaliar situações, mas para tomar a decisão final você deve ouvir sua intuição... que é o mesmo que Me ouvir!”
“Radical!”
“Sempre sou radical... Quer sair daqui?”
Eu me incorporei e olhei para o caminho. Os dois animais levantaram as orelhas. O cão olhou na minha direção.
“O que é que eu devo fazer?”
“Você confia em mim? Você confia na sua Mãe?”
Procurei no fundo do meu coração e achei: uma sensação de alegria, de calma que era agitação ao mesmo tempo, uma vontade de fazer tudo e compartilhar isso com todos. Amor.
“Claro que sim, Mãe” disse eu, confiante por primeira vez em muito tempo.
“Então vai enfrente. Ignore os dois animais, nunca tocariam um dos meus Filhos...”
Avancei tranquilo. O lobo continuou dormindo. O cão me seguiu com o olhar, mas não se incorporou. Passei entre eles e enveredei pelo caminho escuro. Que subitamente parecia claro! Cada pedra, cada buraco, tudo era visível. Passei entre as torres escuras. Deu vontade de gritar, para chamar os que nelas estavam presos, encadeados às suas ilusões. Mas era o momento deles e eu não podia intervir. Para mim, naquele momento, não existia perigo, não existiam expectativas, não existia o medo, só aquele Amor imenso me enchendo de calma e alegria.
“A saída da noite é através do Amor?” perguntei.
“A saída da noite da sua alma. Mas uma vez que você deixa o Amor tomar conta da sua vida, pode transitar pela noite... e curtir o passeio!” disse ela, rindo.
Talvez outras pessoas poderiam pensar que aquele lugar, aquela situação, eram terríveis. Eu estava achando aquela caminhada linda. Ou talvez era a companhia. De repente bateu uma dúvida...
“Mãe, quando sair daqui, você vai ficar comigo?”
“Sempre estou com você” disse ela suavemente. “Você que não percebe...”
E voltou a rir.

E assim, amparado pela sua presença amorosa, segui meu caminho em direção ao Sol...

Imagens:
A Torre - Tarô Iniciatório Golden Dawn
A Torre - Tarô de Waite
A Torre  - Tarô do Círculo Ancestral



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