Arcano XIX - O Sol

Posted by Jorge Puente Marcadores:

Acordou. O sol estava alto no céu. Sentia-se descansado e renovado. Lembrou da passagem pelas trevas, os cães, as torres... e a voz doce e encantadora que o tinha guiado através da noite. Era mesmo da Deusa? Ou teria sido a sua própria mente falando? Bem, isso importava agora? O importante era que, finalmente, tinha conseguido sair daquela noite eterna e o sol brilhava no céu.
Mas onde estava a moça do lago? Ela tinha dito que o esperaria do outro lado da noite...
“Oi...” sentiu uma voz de criança. Olhou em volta e descobriu uma menininha sentada perto dele. Tinha o cabelo loiro e curto e não usava roupa. Detrás dela estendia-se um campo cheio de flores.
“Você demorou a chegar” disse a menina. O caminhante estava confuso.
“Oi” respondeu devagar “Onde estou?”
“Fora do labirinto da sua mente” respondeu ela com seriedade. Apontou com um dedo para trás do caminhante. Este se virou e viu uma parede com uma entrada. Resultava bastante obvio que era um labirinto. A entrada estava decorada com um crânio de boi e uma asas de pássaro.
“O que é isso ai?” perguntou, desnorteado.
“O labirinto da falsidade e da morte” respondeu ela com calma. “Você saiu e desmaiou. Estou aguardando um tempão para você acordar...”
Resultava cômico vê-la sentada no meio das flores, tão criança e falando como uma adulta.
“Uma moça me disse que ia me esperar na saída...” comentou o caminhante.
“E aqui estou” respondeu ela. Ele começou a rir.
“Ela era uma moça adulta. Você é uma criança” disse ele, divertido.
“Você também” respondeu ela, bem séria.
Por primeira vez, ele olhou para seu corpo. Era verdade! Era uma criança de novo!
“Meu Deus!” exclamou. Olhou para suas mãos. Eram as mão de um menino de não mais de seis ou sete anos. “Sou criança de novo... e sou negro!”
“A-há...” ela olhou para ele seriamente “exatamente”.
“Mas que aconteceu?” ele estava sinceramente desconcertado.
“Você atravessou a noite da alma, com a ajuda da nossa Mãe, e renasceu sob o calor do nosso Pai. Nunca estudou Alquimia? Nigredo, a negritude, é a primeira fase da transformação. Você está mostrando isso agora...”
Resultava um pouco cômico e desconcertante ver aquela criança pequena falando de Alquimia e de mistérios da alma.
“Quem é você?” quis saber o caminhante. Ela sorriu por primeira vez.
“Não me reconhece? Você ficou comigo um tempo à beira do lago, embaixo de oito estrelas... Eu prometi que te esperaria do outro lado das torres. Por um momento pensei que você não ia conseguir sair”.
“Mas você era adulta então... o que aconteceu?”
Ela suspirou, balançando a cabeça. Parecia estar dizendo “Leeerdoooo”.
“Quer uma explicação completa, tintim por tintim?” perguntou suavemente.
“Por favor” respondeu ele, se sentindo um bobo.
“Tudo bem. Vamos lá: você estava vivendo uma fantasia dentro do seu labirinto...”
“Qual labirinto?” interrompeu ele, desconcertado.
“Esse que está atrás de você”
“Mas por que estava lá dentro?”
“Meu Deus, você parece criança com todas essas perguntas!” disse ela, irritada. “Você estava nesse labirinto pelo mesmo motivo que todas as pessoas: para fugir da realidade. Em um labirinto desses, você pode se esconder do seu Eu superior e das suas personalidades durante décadas. Só que ao mesmo tempo em que você se esconde delas, também não consegue chegar a lugar nenhum. Vive com medo, se escondendo sempre, desconfiando de tudo e de todos, até da sua sombra. Muitas pessoas morrem em sofrimento, sem nunca conseguir sair do labirinto da noite. Muitas delas constroem torres de ilusão, tal como você fez. Isso é bom, porque então você fica num ponto fixo e tem chance de ser resgatado...”
“Pela destruição da torre!” disse ele, indignado.
“Você conhece algum outro método?” perguntou a menina. “Você achava que aquilo era uma ilusão?”
“Não... achava que era a pura realidade...” confessou ele, baixando os olhos.
“A maioria das pessoas acham que a ilusão na que vivem é a realidade, por isso são tão fáceis de manipular. E a maioria nunca consegue sair do labirinto da mente... Bem, vamos continuar: a sua torre foi destruída, seu irmão o guiou durante o tempo necessário até chegar ao caminho certo. Seguindo o caminho você me achou à beira do lago, ficou um tempo comigo e depois voltou à estrada, rumo à saída. Finalmente chegou até as torres guardadas pelas forças do seu inconsciente. Essa era a prova que só poderia resolver confiando na força do amor da Mãe. Parece que você conseguiu e aqui estamos... É isso, em resumo”.
Ficaram em silêncio durante um tempo, depois da explicação. Finalmente, ele falou.
“Mas por que tenho corpo de criança? E por que mudou a cor da pele?”
“O corpo de criança indica que, nesta nova fase da sua vida, você é novamente uma criança. Entenda que você também era uma criança antes, mesmo usando um corpo de adulto, caso contrário nunca teria sido iludido pelo Diabo nem teria construído aquela Torre. Você nem conseguia reconhecer seu irmão! Mas nesta realidade, livre dos medos, você pode brincar a vontade. Não se preocupe, seu corpo vai crescer rapidamente...”
“E a minha pele...?”
“O preto é a cor do Nigredo, a primeira fase da transformação alquímica. A cor da sua pele indica seu novo grau de sabedoria. Você passou pelo inferno da noite e agora renasceu na luz, mais sábio.”
“Mas você é branca!” disse ele, estranhado. Ela riu.
“Eu já passei várias vezes pelo inferno. Agora meu corpo toma a aparência que eu quiser... escolhi aparecer como criança para poder brincar com você. Se você quiser, podemos crescer juntos, seria bem divertido!”
 “Mas... não existe o risco de eu  voltar para o inferno da Noite?” perguntou ele, preocupado. Ela negou com a cabeça.
“Não, essa fase acabou. Você pode voltar um dia, se achar que tem coisas para aprender na Noite, ou se quiser servir de guia a outros que estão perdidos...”
“Tal como você fez”
“Sim. Mas será uma decisão consciente sua. Vai poder entrar e sair quando você quiser. Terá controle da situação e, portanto, não estará no Inferno da Noite, mas na Doce Noite da nossa Mãe, onde as plantas se regeneram e o mundo se prepara para um novo dia...”
Ele deixou-se cair na grama novamente. Então tinha conseguido! Estava fora da noite eterna e o Sol banhava seu corpo e sua mente. De repente, foi assaltado por outra preocupação. Sentou-se e olhou para ela.
“O que se supõe que vamos fazer agora?” quis saber. Ela voltou sorrir.
“O que é que as crianças fazem normalmente?”
“Brincam...?” disse ele, em dúvida. Ela riu.
“Exato! É isso que vamos fazer, justo agora!”
Ela levantou-se, foi até ele e o ajudou a se incorporar. Parada junto a uma poça d’água parecia uma versão mirim da moça do lago.
“Vamos!” gritou, e puxou dele com força, começando a correr. Ele mal conseguia segui-la, com aquele corpo de criança, mas a mão dela era firme e transmitia segurança. Segurou na mãozinha dela e se deixou levar. Tal como antes, era uma guia excelente!
Afastaram-se do labirinto, correndo entre as flores, embaixo do Sol...



Mil interpretações foram dadas para a carta do Sol. Uma delas, a mais antiga e a mais moderna, vê o Sol como o novo e antiguíssimo Divino Masculino. Não o princípio patriarcal atual, representado pelo Imperador, mas Princípio Masculino original, alegre, brincalhão e sempre com vontade de conhecer coisas novas. O companheiro de jogos natural para o Princípio Feminino. Você pode aprender mais sobre ele neste link: http://www.jeshua.net/por/healing/healing5por.htm.
É verdade que quando alcançamos um determinado grau de desenvolvimento espiritual voltamos a ser crianças? Por que voltar a ser criança? Porque só através da alegria e das brincadeiras somos capazes de atingir o conhecimento verdadeiro, fugindo assim do mundo das ilusões e da noite. Pois a criança representa a pureza e a melhor parte de nós. Ela é verdadeira, reconhece e exige a verdade daqueles que a rodeiam. Jesus foi claro quando disse “Deixai que venham a mim as crianças”. Porque só com o coração puro de uma criança somos capazes de entrar no Amor de Deus.
Quando o Sol aparecer para você numa tiragem de Tarô, entenda que chegou o momento de você se divertir. Curta o sucesso do que esteja fazendo, mas entenda que chegou a hora de assumir sua criança interior de forma adulta. Só através da pureza dela seu sucesso vai se transformar no que realmente é: uma brincadeira bem feita. E então você estará pronto para se aproximar de Deus com o coração puro... que é o que vamos ver na próxima carta
Até lá!

P.S.: para quem quiser aprender mais sobre o tema, recomendo o livro “O jardim das Delícias” de Ian Watson (The garden of Delights). Infelizmente, acho que não tem tradução para o português, mas vcs podem achá-lo em espanhol e inglês. Um livro excelente que desenvolve sua história sobre o famoso quadro homônimo do pintor Hyeronnimus Bosch.


Imagens
1) O Sol - Tarô Iniciatório da Golden Dawn. A história foi construída a partir desta carta.
2) O Sol - Tarô do Labirinto. Nesta carta as partes masculina e feminina já são adultas.
3) O Sol - Tarô de Waite. Nesta carta o princípio masculino está representado pela força do cavalo branco (cor que indica sua pureza) que é guiado sem rédeas por uma menina.


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