Arcano XIII - A Morte

Posted by Jorge Puente Marcadores:


Olá, eu sou A Morte. Prazer. Desculpe ter chegado assim, de improviso, é um costume que custa deixar. Deveria enviar um convite ou um aviso, mas já aprendi por experiência própria que poucas pessoas lêem o que eu envio. Dizem que dá um medo terrível... sei lá, só sei que elas não lêem. Então para que enviar? Um gasto de tempo à toa...
Não acha?

Desculpe, acho que essa minha chegada intempestiva o assustou. Você está muito branco. Calma, não vai acontecer nada, só algumas pequenas mudanças na sua vida, que podem ir desde mudar de emprego até deixar este mundo cruel...
...

Xiii... acho que ele desmaiou. Caramba, deveria ter usado outras palavras...

Mas vejo que vocês estão ai, prestando atenção. Que bom, gosto disso! Às vezes me sinto tão solitária... Tão incompreendida...

Tudo é culpa do meu nome: A Morte. Isso já assusta. Tentei mudar, mas Ele me disse que não posso, que esse é o nome adequado, que são as pessoas que não compreendem o sentido da morte. Então decidi elaborar uma pequena explicação para minha presença nas suas vidas. Vamos lá?

Sou aquela que vai se encontrar com você na hora em que abandonem o plano terreste. Isso é verdade. Mas até lá cumpro com um monte de outras funções e a mais importante é produzir mudanças na sua vida. Sim, isso ai: MUDANÇAS. Entendeu?

Tudo isso tem a ver com sua principal caraterística: ser Filhos do Criador e, portanto, Criadores. Vocês criam o tempo todo. Isso é muito bom, mas tem um lado ruim: as criações começam a se sobrepor na vida de vocês. Ou pior, vocês não conseguem sair das suas criações. Não conseguem evoluir. É como se construíssem uma casa e depois ficassem encerrados dentro dela, porque não colocaram uma porta para entrada e saída. Ai eu chego com uma marreta, para resgatar vocês, para tirar vocês de dentro daquela prisão... E VOCÊS AINDA RECLAMAM!

Minha função é promover mudanças na sua vida. Quando algo está estagnado ou funcionando mal, é hora de mudá-lo. Orientar você nessa mudança é minha tarefa. Claro que se você ficasse mais atento e reconhecesse o que está mal, eu não teria trabalho. Você mesmo mudaria qualquer coisa que estivesse ruim ou não fosse mais necessária. Mas como você esquece disso, eu chego para lembrar que ESTÁ NA HORA...

O que é que está mal? Como é que você poderia reconhecer isso? Você não gostaria de ter uma aliada em vez de sentir que sou a portadora do desastre? Vamos às dicas:

- As coisas estão mal quando não fluem livremente, com facilidade. Quando você tem que lutar para acordar e lutar mais ainda para ir trabalhar. Quando cada dia de trabalho custa. Quando tem que visitar o médico porque está com hipertensão e o psiquiatra para que dê calmantes para conseguir aguentar mais um dia de trabalho.

- As coisas estão mal quando você não fala mais com seu cônjuge. Quando as brigas são permanentes e não levam a lugar nenhum. Quando você já falou mil vezes sobre um determinado  tema e a outra pessoa não muda de comportamento. Quando você não tem mais alegria. Quando a obrigação suplantou o prazer e você sente um peso enorme ao realizar qualquer ação própria de um casal.

- As coisas estão mal quando a vida parece cinza, mesmo estando em um dia ensolarado com 30 graus de temperatura, à beira da praia.

- As coisas estão mal quando você já tentou tudo o que o amigo, o psicólogo, o psiquiatra ou o sacerdote te disseram para fazer... e tudo continua igual de frustrante.

Isto se deve a que as pessoas às quais você consultou não promovem mudanças. Elas tentam que o teu sistema funcione tal como está... e ele não está funcionando PRECISAMENTE PORQUE ESTÁ TAL COMO ESTÁ!

Entendeu? A sua vida, tal como está, NÃO FUNCIONA. Você tem que fazer algumas mudanças. Mas os seres humanos são extremamente resistentes a mudanças. Então é a hora de eu entrar em cena.

Tenho duas formas de fazer meu serviço.

A primeira é a mais suave. Sou a Donzela do Tempo, venho te avisar que você tem que fazer a mudança e te ensino como fazê-la. Como? Fácil: primeiro você tem que sentir o que te incomoda. Isso implica ser honesto com você mesmo, mas é fácil de determinar. O que te incomoda te causa uma sensação de malestar na boca do estômago. Uma sensação de incomodidade, de estar no lugar errado, com as pessoas erradas. Isso em primeiro lugar. Em segundo lugar estimulo você a fazer certas pequenas mudanças que vão alterar o rumo da sua vida. Pequenas mudanças no começo, mas com o tempo elas produzem uma grande diferença. Por exemplo, você se dedicar a um hobby que sempre quis. Ou começar uma segunda atividade que, com o tempo, vai virar a atividade principal da sua vida. Ou seja: ensino a mudar o rumo da sua vida sem esforço, até com alegria.

A segunda forma é mais dolorosa. Como você não ouviu os avisos, chego de repente, na forma de uma demissão ou de uma doença que obriga você a mudar seu padrão de vida. Posso também chegar como uma falência que deixe você sem dinheiro e mude seus hábitos ou como um divórcio que acaba com um matrimônio mantido a custa de enormes esforços. O que você pode ter certeza é que a mudança não será bem vinda. Você vai ficar brav@, vai espernear, vai xingar todo mundo, vai tentar que seu mundo antigo volte. Mas isso é impossível: ele já está morto. Ele já foi. E já foi há muito tempo. É isso o que você não percebe: que seu mundo já era, que estava vivendo em uma realidade morta, mantida viva só com grande esforço, o que consome enormemente suas energias. Quem não conhece o caso do amigo que tem um negócio que não funciona, mas que não quer fechar as portas? Ele tenta de tudo para aquela loja dar certo, mas nada funciona. E não vai funcionar, por diversos motivos. Mas a pessoa não quer reconhecer. E assim o negócio come primeiro o dinheiro do investimento, depois as reservas, depois os empréstimos nos bancos (sempre são vários empréstimos, em bancos diferentes, um para cobrir o outro) e finalmente o carro e o dinheiro da família. No final da história a pessoa e a família dela têm sorte se conseguem conservar um imóvel para viver: muitas vezes a falência é tão grande que leva embora tudo, até o casamento e a família. Começou pequeno, mas com o tempo o efeito foi devastador. De novo, se a pessoa tivesse permitido minha presença e feito as mudanças no começo, a coisa seria bem diferente. Como não fez, voltei no final, de forma bem mais catastrófica.

Mas quem sempre define minha forma de agir é você.

Entendeu?

Em um mundo definido pela Vida, a presença da Finalização, da Morte, é natural. É necessário acabar com um sistema para dar origem a outro. Na forma negativa isso acontece de forma súbita (em aparência) e devastadora. Mas na forma positiva eu promovo uma mudança, uma Transformação. Eu ajudo a transformar algo que não funciona em algo que funciona muito melhor.

Quer fazer a prova? Permita que eu entre na sua vida. Abra um espaço para mim, me permita ajudá-lo a atingir suas metas, orientando as transformações e a remoção do que é supérfluo. Eu garanto que tudo será mais fácil e o sucesso chegará muito mais rápido.

Caso contrário, sempre podemos nos encontrar no Caminho da Catástrofe...

Mas eu preferiria que fosse no Caminho da Transformação, que leva à Alegria.

Enfim, essa decisão cabe a você.

Até lá, pense com carinho.

Fico à sua disposição.

Atentamente,

A Morte.



Imagens:
1) A Morte - Tarô de Lo Scarabeo
2) A Morte e a Donzela do Tempo - Tarô do Portal Mágico


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Arcano X - A Roda da Vida

Posted by Jorge Puente Marcadores:



Cansado e abatido, o viajante chegou finalmente ao que parecia um entroncamento de caminhos. À sua frente abria-se um amplo espaço ao qual chegavam outras três estradas. O lugar era bonito, tinha árvores que davam sombra e uma fonte com água fresca. A primeira coisa que fez foi beber. Muito. A jornada tinha sido esgotante. Como todas as jornadas nos últimos tempos...
Após beber, decidiu descansar. Deitou à sombra de uma árvore e um pouco depois dormiu.
Quando acordou já era noite. A raiva tomou conta dele: não tinha alimento e não podia continuar na escuridão. Teria que pernoitar ai, com fome. Ainda bem que não faltava água. Então viu a fogueira.
Um homem estava sentado frente a um bonito fogo, cozinhando algo. Era de idade indefinida e estava bem vestido. Não parecia perigoso, mas o viajante era desconfiado: já tinha sido pego por ladrões antes. E mesmo carregando pouca coisa, seria terrível ser assaltado. Enfim, também não podia permanecer onde estava, assim que decidiu ir até a fogueira.
-Boa noite- disse.
-Boa noite, viajante- respondeu o homem, com um sorrido. -Está com fome?
Estava, era inútil negar. Disse sim com a cabeça e o homem fez um gesto para ele se sentar. O viajante se acomodou frente ao fogo. O homem estendeu a mão com um caço de sopa, que o viajante consumiu rapidamente. Jantaram em silêncio. Ao terminar lavaram tudo na fonte e voltaram para o fogo.
-A viagem está difícil?- perguntou o homem. O viajante assentiu.
-Sim. Parece que nunca acaba- ficou um momento em silêncio. Tinha vergonha de dizer que estava perdido. Fazia tempo que não achava o caminho certo. A cada entroncamento rezava para pegar o caminho correto que o levasse ao seu destino, mas isso não acontecia. Talvez fosse hora de pedir ajuda.
-Acho que estou perdido- disse o viajante. O outro fez sinal que tinha entendido e mexeu um pouco no fogo, que começou a queimar mais vivamente. A temperatura melhorou.
-Onde está indo?- quis saber.
-A algum lugar bonito, onde possa ser feliz- disse o viajante. O homem fitou-o em silêncio.
-Isso é um pouco vago. No seu caso eu diria que qualquer caminho serve, pois eventualmente você vai chegar a algum lugar que considere bonito... e talvez possa se convencer que é feliz...
O viajante ficou em silêncio. Não tinha pensado nisso. Ultimamente ia de cidade em cidade, de relacionamento em relacionamento, de emprego em emprego e nunca achava que seu atual estado fosse o ideal. Sempre esperava mais, a eterna esperança e expectativa de que o próximo será melhor, que a felicidade está à volta da esquina. Mas não estava... e então a cada esquina era uma nova frustração.
-O que você considera felicidade?- quis saber o homem, enquanto colocava um bule sobre as brasas. O viajante ficou pensando um bom tempo.
Em realidade não sabia a resposta. Nunca tinha pensado em definir a felicidade. O que o faria feliz? Dinheiro? Muitas mulheres? Mando sobre outros? Poder? Inteligência superior? Família?
-Bem, várias coisas...- disse, meio em dúvida.
-E qual seria a primeira?- perguntou o homem, enquanto colocava umas ervas dentro da chaleira. Um cheiro maravilhoso espalhou-se no ar.
O viajante pensou um pouco.
-Família. Quero uma família... o resto vem depois.
O homem retirou o chá e o despejou em duas xícaras de metal. Estendendo uma para o viajante, perguntou.
-O que é mais importante desse... resto?
Beberam o chá em silêncio. Finalmente, o viajante respondeu.
-Dinheiro. Quero estar tranquilo materialmente.
-Então siga por ai- disse o homem, mostrando o primeiro caminho à direita. Quando chegar ao próximo entroncamento, pegue a segunda saída à direita.
-Como é que você sabe disso?- disse o viajante, surpreso. O homem sorriu.
-Digamos que conheço bem estes caminhos. Já os percorri muitas vezes...
O viajante ficou um tempo olhando para o caminho. Então surgiu uma dúvida.
-E se quisesse ter dinheiro e poder?
-Tome esse outro caminho- disse o homem, mostrando outra estrada. O dinheiro vai levar você ao poder. Só siga reto e não repare em nada. Não pare nunca nem se distraia nos entroncamentos. E antes que pergunte, você vai saber qual caminho escolher porque estará sempre à sua frente... desde que você não fique distraído com outros pensamentos.
Outro longo silêncio. Agora o viajante tinha dois caminhos para escolher.
-Não precisa decidir agora- disse o homem, adivinhando sua dúvida Vai descansar. Amanhã você decide...
O viajante pegou suas coisas e se acomodou perto do fogo. Daí a pouco estava dormido.


Quando acordou, o homem estava frente à fogueira, preparando o café da manhã. O viajante se aproximou ao fogo. Dividiram os restos de pão que o viajante ainda tinha e um chá quente maravilhoso que restaurou suas forças.
-Você já pensou que caminho vai tomar?- quis saber o homem. O viajante assentiu.
-Acho que vou pelo caminho da família. Mais para frente vou me preocupar com o dinheiro.
O homem balançou a cabeça afirmativamente.
-Boa escolha.
De repente, o viajante viu o que pareciam novos caminhos que saiam do entroncamento.  Não lembrava tê-los visto na tarde anterior.
-E esses caminhos?- perguntou surpreso.
-Ah, você os está vendo agora- sorriu o homem. Levam a outras possibilidades. Esse ai mistura amor com realização, esse poder com sabedoria...
-Como é que não os vi ontem?
O homem sorriu
-Hoje você está mais atento. Só isso. Quando você se acalma e começa a prestar atenção, o caminho certo aparece à sua frente.
O viajante observou os novos caminhos.
-Qual a diferença entre o que eu quero tomar e esse do amor com realização material?
-Boa pergunta- disse o homem, sorrindo. No caminho que você escolheu o amor vem primeiro e depois de solidificado você começa a construir seu sucesso material. Nesse ai as duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Demora um pouco mais e você não pode se distrair, senão perde o caminho, mas é uma boa alternativa.
-Você parece conhecer muito bem esses caminhos...- disse o viajante, curioso.
-Já os transitei muitas vezes- respondeu o homem, sorrindo. Agora sei aonde vão e as viagens ficam mais fáceis...
O sol começava a aquecer e uma suave brisa soprava.
-Acho que está na hora de você ir- disse o homem-. Antes que o clima fique muito quente.
O viajante ficou em pé.
-Acho que vou por esse caminho do Amor com sucesso material. Gostei da idéia...
-Boa viagem, meu amigo. Se ficar você ficar perdido em algum entroncamento basta ouvir sua voz interior. Siga sua intuição.
O viajante pegou sua mochila.
-Obrigado por tudo. Realmente não sei como te agradecer...
-Fico feliz por ter podido te ajudar- disse o homem, sorridente.
O viajante ficou parado um momento. Então sentiu uma súbita curiosidade.
-Quem é você? Como sabe tanto dos caminhos?
-Sou um viajante igual a você, só que com mais experiência. Percorri esses caminhos muitas vezes, já fiquei perdido, já me resgataram. Hoje me dedico a ajudar àqueles que ficam desorientados, como você. Só isso...
-Obrigado- disse o viajante, sorrindo por primeira vez. Espero que a gente volte a se encontrar...
-Se esse for o desígnio, nossos caminhos vão se cruzar novamente, não se preocupe. Boa caminhada, Viajante.
O homem se inclinou respeitosamente e o Viajante fez o mesmo. Depois virou as costas e enveredou pelo caminho escolhido.
Quando já tinha percorrido certa distância, voltou olhar para trás. O entroncamento estava deserto, o homem tinha desaparecido.
-Quem era?- perguntou-se o Viajante. Era um homem realmente?
E isso era importante? Homem ou anjo... um amigo enviado na hora certa.
Continuou a caminhar pela estrada da vida, mais feliz.
E foi se acostumando com a felicidade. Nos entroncamentos seguia sua intuição, tal como o homem tinha ensinado. Nunca errou. Chegou ao seu destino, casou-se, teve filhos, fez dinheiro.
Um dia estava fazendo uma peregrinação para um lugar sagrado e parou num entroncamento. Acendeu um fogo para se aquecer, a noite estava ficando fria. Então viu um rapaz que chegava por um caminho lateral, cansado. O Viajante poderia ter ficado invisível, mas não tinha necessidade disso. Fez um sinal e o fogo ardeu com mais força.
O rapaz aproximou-se, indeciso.
-Desculpe, o senhor poderia me ajudar? Acho que estou perdido...
O Viajante fez um sinal para ele se aproximar.
-Sente-se junto ao fogo, meu amigo. A noite está fria.
O rapaz fez isso rapidinho. Realmente tinha esfriado muito.
-Você está com fome? Estou preparando uma sopa- disse o viajante.
O rapaz disse que sim. Estava faminto e fazia tempo que não parava para conversar com um amigo. E na noite fria, amigos são como fogueiras: aquecem e guiam...
Jantaram em silêncio. Ao terminar, o Viajante olhou para ele.
-A viagem está difícil?- perguntou com um sorriso.
-Sim, parece que nunca acaba...- disse o jovem, tristemente.
-Para onde você está indo?

A Roda da Vida deu uma volta completa...

Faça uma boa viagem


Imagens:
A Roda - Tarô dos Druidas (Druidcraft Tarot)
A Roda da Fortuna - Tarô Rider-Waite-Smith
A Roda da Vida - Tarô do Portal Mágico
A Roda - Tarô das Estações (Wheel of the Year Tarot)

Como aplicar numa leitura de tarô: quando este arcano aparece no jogo é porque caminhos diferentes estão disponíveis. Nesse caso, se o consulente souber o que quer, fica fácil definir qual caminho tomar. Caso contrário, pode tomar qualquer caminho e as consequências serão inesperadas. Para saber quais caminhos estão disponíveis, você pode pedir para a pessoa escolher duas ou três cartas que representarão esses caminhos.


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