O Tarô de Marselha

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Aproximadamente 600 anos atrás surge o tarô na forma em que o conhecemos hoje. Ou seja, as imagens que usamos atualmente parecem ter origem em imagens dessa época. Podemos rastrear o tarot até 500 ou 600 anos atrás, mas não mais longe (li agora há pouco num site que as primeira imagens datavam de 1299...). Com isso quero dizer que ainda não achamos documentos que sirvam de prova que ele é mais antigo. As imagens originais (as mais semelhantes) estão em manuscritos dessa época. Para quem tiver interesse neste tema, aconselho o livro da Sallie Nichols, Jung e o Tarô. É claro que tem muitos outros autores, que vão de Levi a Nema, que opinaram sobre a origem do tarot. Vale a pena ler todos eles. Por exemplo, na Iniciação através do Tarot é considerado que ele tem mais de quatro mil anos e que não é apenas um sistema de adivinhação, mas um Caminho Iniciático que tem suas raízes no antigo Egito. Na minha linha consideramos que ele é bem mais antigo e que foi criado nos últimos dias da Antiga Civilização, como uma forma de preservar os conhecimentos daquela civilização e ao mesmo tempo como um caminho iniciático para conseguir um Humano divino... Enfim, histórias e opiniões tem muitas: escolham a que vocês mais gostem...:)
Vamos aos fatos?

Chegamos ao que parece ser o pontapé inicial do nosso jogo de tarot atual: o Tarô de Marselha. Vinte e duas cartas principais e 56 secundárias. Elas são conhecidas como os Arcanos Maiores (as 22 primeiras) e os Arcanos Menores (as 56 restantes). Não são diferentes em importância, mas no tipo de leitura que oferecem.
Vamos nos concentrar primeiro nos Arcanos Maiores. Vinte e duas cartas que nos mostram 22 estados do consciente ou inconsciente. Vinte e duas situações pelas quais todos nós passaremos em algum momento da vida, ou talvez em mais de um momento...
Os personagens, as cores, os fundos, tudo parece ter sido criado para produzir uma resposta a nível inconsciente do leitor do baralho. Você pode meditar sobre ele, e cada vez aprenderá coisas diferentes. A idéia é que cada carta abra uma porta ao seu inconsciente e que a força do arquétipo entre em contato com você, produzindo mudanças (bem, essa é uma das formas de encarar o tema. Tem outras...:)
Esse baralho original terminou se separando em dois. Hoje usamos as 56 cartas dos Arcanos Menores como um baralho comum. Elas têm duas versôes: o baralho inglês e o baralho espanhol. O primeiro é o que todos usamos para jogar paciência no micro. Está dividido em Diamantes, Corações, Trevos e Piques. O segundo conserva mais caraterísticas originais e está dividido em Ouros, Espadas, Copas e Paus. A diferença do anterior, conserva a figura do cavaleiro. Todos jogam com essas cartas e quase ninguém sabe que servem para propósitos adivinhatórios e de autoconhecimento! O uso dos arcanos menores vou contar numa outra postagem.
Vamos deixar então o Tarô de Marselha como o vovô de todos nossos tarôs atuais. Ele é o mais usado, seja na sua versão original ou em alguma das versões derivadas. Existem outros baralhos com cartas e significados completamente diferentes, mas vamos deixá-los para outras postagens.

O Mago - Parte 2: Conclusão

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O Mago
Parte 2: Conclusão
(Veja a Parte 1 na postagem anterior)

Pela primeira vez em mais de vinte anos, acompanhar seu mentor não era a principal opção. Mas, que opções estavam disponíveis?
“Quanto tempo tenho para te responder?” ela quis saber.
“Máximo, 48 horas. Não tem problema se você vier comigo, mas se tenho que te enviar para alguma filial ou para outra empresa, tem que ser logo. Estou perdendo poder rapidamente, Samara”.
“Entendi”, disse ela, incorporando-se. “Mais alguma coisa?”
“Só gostaria de saber se você tem tempo para jantar comigo amanhã. Tenho muitas coisas para te contar”.
“Claro que sim, David” sorriu Samara. E saiu do escritório dele.
A situação era desesperada, mas simples de entender. Com a saída de David não poderia continuar na empresa. Não estava pronta para achar outro emprego imediatamente. E não queria ficar desempregada. Não podia gerar uma onda encantada de sucesso, não tinha tempo suficiente. Depois de tantos “não” ficava difícil ver saídas positivas. Tinha que fazer um ritual. E esse ritual deveria ser executado logo!
Mas antes tinha que falar com Leandro e com Brigitte...
Por volta da meia noite a limusine do David parou enfrente da casa de Samara e ela desceu após se despedir do seu chefe. Entrou na casa, pegou uma bolsa e foi para a garagem. Quinze minutos depois estava dirigindo direto para um local bem afastado, onde pudesse levar a cabo o ritual. Anos de prática lhe permitiam conhecer lugares discretos e seguros. Uma hora de estrada e chegou. Saiu da rodovia, entrou num caminho de terra e pegou uma saída à direita dez minutos depois. Agora estava no meio de um bosque, perto de uma represa. Desligou as luzes e desceu do carro. Foi até o porta-malas e retirou os implementos necessários para o ritual. Vestiu a túnica cinza por cima do macacão e a ajustou. Prendeu o cabelo com grampos resistentes (como era difícil ser uma bruxa elegante!). Colocou o capuz e, graças a Deus, o cabelo não deu problemas! Agora começava a ação!
Entrou no bosque carregando uma bolsa com os pertences. Parou num espaço aberto entre as árvores e começou a preparar o ritual. Colocou o caldeirão, o pantáculo e a varinha mágica no chão, mas segurou a adaga com ela. Acendeu o fogo e então, usando a adaga, traçou o círculo mágico em volta dela. Sentiu como os elementais se agitavam ao seu redor. Seu poder como maga já era gigantesco, mas essa noite ele estava enormemente incrementado pelas energias dos seus discípulos.

O vento começou assoprar, enquanto Samara, ajoelhada, pronunciava as antigas fórmulas que invocavam os elementos. Palavra a palavra, gesto a gesto, a maga foi chamando seus guias e auxiliares. O vento aumentou, mas Samara o ignorou e continuou com as invocações. O vento agora era insuportável e Samara ficou feliz por estar com aquela pesada túnica, senão estaria passando frio! O bosque se agitava como com vida própria em volta da maga, que continuava pronunciando as antigas fórmulas com firmeza. De repente o fogo aumentou e Samara soube que tinha entrado na seguinte fase. Fechando os olhos, pronunciou claramente uma série de nomes e depois as seguintes palavras:
“Preciso claridade de pensamento e capacidade de criação! Agora!”
O vento se agitou loucamente mais uma vez em volta dela e então o fogo pareceu estourar. Foi como se um milhão de faíscas explodissem em todas as direções, mas nenhuma delas pareceu tocar a Samara. Depois disso, o vento diminuiu e o fogo foi se apagando devagarinho. A quietude voltou lentamente ao bosque noturno.
“Solta o controle, Samara!” a voz da sua mestra ecoou pelo bosque, enchendo de alegria o coração da maga. E ela obedeceu...
A fria e mágica luz da Lua iluminou suavemente a face de Samara. Ela abriu os olhos devagar, e soube que tinha sido ouvida...
No dia seguinte comunicou o David sua decisão de ficar no Brasil.
A saída do David estava agitando tudo. Era uma loucura! Finalmente chegou o jantar de despedida, com aquele monte de abraços para o chefe que ia embora. No dia seguinte levou o David no aeroporto, para poder se despedir dele pessoalmente. Chorou feita Madalena quando ele entrou na área de embarque, mas quando chegou ao carro já estava calma e no controle novamente.
Bem, se tudo saia como esperado, as últimas jogadas do David atrasariam a chegada do novo presidente uns dois meses. Melhor contar com um mês e alguns dias. Durante esse período, ela era a presidente em funções da empresa. Agora começava o último grande ato de magia. “Espero que a Tradição seja tão forte como parece... e que o ritual funcione!” pensou Samara.
Duas semanas depois estava numa churrascaria no centro, bebendo um coquetel sem álcool e esperando. Brigitte chegou dez minutos depois. “Para ser tão nova, é bastante pontual” pensou Samara. "E está virando um mulherão...” Realmente a menina estava mudada: as roupas pareciam a ponto de explodir com tantas curvas. Quando Samara tinha entrado no restaurante, a maioria dos homens tinha virado o pescoço para segui-la. Mas agora ela via que os mesmos homens tinham ficado fascinados com a Brigitte. Talvez fosse pelo cabelo rebelde, cheio de luzes, ou pelos jeans ajustados... ou talvez o poder da Brigitte estava aumentando? Vai saber! De qualquer jeito, estava feliz de ver a mudança na garota. Deu um beijo nela e sentaram.
“Então, quando é que você começa no novo emprego” quis saber Brigitte.
“Amanhã. Hoje estou me despedindo do meu antigo mundo. Amanhã estarei em outro...” sorriu Samara.
Levantaram-se e foram para a mesa de saladas.
“Mas como foi...? Você conhecia o cara?” perguntou Brigitte, atacando os frios e o sushi.
“Não” disse Samara, enquanto pegava a maionese de legumes. “Nunca tinha visto. Parece que alguém enviou meu curriculum para ele...”
“E ele te contratou, assim... sem mais?”
Voltaram para a mesa, conversando.
“Claro que não. Ele me chamou na empresa. Tivemos um longo papo sobre preservação ambiental, reciclagem, embalagens descartáveis, etc.”
“Já queria eu que minhas entrevistas de trabalho fossem tão simples...” lamentou-se Brigitte. “Para mim são dias e dias de dinâmicas e testes...”
“Um dia você chega lá” riu a Samara. “Ah, ele me convidou para jantar”.
“Até isso?” exclamou Brigitte. “É demais! Ele é bonito?” quis saber.
“A-ha...” assentiu Samara, sorrindo. “Encantador. Fino, educado, sério e elegante... Vai ser toda uma mudança ter um chefe que nem ele, depois de vinte anos com David...”
“O Leandro vai ficar com ciúmes”
“Mmmm... só o Leandro?” Samara alçou uma sobrancelha, enquanto lutava com uma sobrecoxa de frango. Brigitte ficou vermelha e começou a rir.
“Quando começa? Vai ter que mudar de cidade? Vai se afastar da gente?” quis saber a garota, preocupada.
“Isso é o melhor: vou ficar em São Paulo. Podem ficar tranquilos, vão ter que me aturar um bom tempo ainda...” respondeu a maga.
“Acho que vou pedir um vinho” disse Brigitte, aliviada. Chamou o garçom.
“Que vinho você prefere, Samara?” quis saber.
Samara ia falar, mas se deteve e olhou para a menina. Era hora de ela começar a tomar suas próprias decisões.
“Escolha você desta vez, minha querida. Você já tem idade e grau suficiente para isso...” disse. Brigitte sorriu feliz e pediu o vinho. Um vinho excelente, na opinião de Samara.
Não sabia como seu curriculum tinha ido parar nas mãos do seu novo chefe, nem como ela tinha conseguido o emprego quase sem fazer entrevistas nem dinâmicas. Importava? As forças que fluíam através dela eram muito maiores do que ela. E Samara nunca sabia exatamente os tempos e os modos em que elas se manifestavam. Só sabia que sua mente, sempre alerta, sabia equilibrar bem os elementos da sua vida. Seu trabalho, sua espiritualidade, os meninos... todos giravam harmonicamente em volta dela. “Um pouco de tempo para cada um” pensou “e meu coração inteiro para todos... E ainda por cima, aprendi a soltar o controle... ou ao menos acho que aprendi... Mas será que eu soltei o controle... meeeessmo?” pensou a maga, divertida.
Compartilharam o vinho, falando e escutando como só as mulheres sabem fazer. A noite estava começando, e o mundo parecia entrar novamente nos eixos para Samara...
“Acho que agora posso relaxar um pouco...” pensou, enquanto tomava um gole de vinho, ouvindo o riso alegre de Brigitte...
O Mago realiza seu ato na presença do público. Ele parece estar sozinho, mas não é assim. O Mago é tão forte quanto os seus discípulos. O Mago é tão forte quanto seus mestres. Porque o Mago é parte do todo, ele é o elo que liga o passado ao futuro, o visível ao invisível, o Céu a Terra. E parado lá, sozinho, ele é só a parte visível de um Todo infinitamente maior...

Arcano I - O Mago

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Arcano I
O Mago
O Arcano Um é associado geralmente à força de Vontade, à autodeterminação, saber traçar e seguir o próprio caminho. Segundo Eakins, ele “é a mágica da força universal viajando através do veículo do corpo físico”. Significa dirigir o fluxo da energia criativa através de uma ação centrada. Assim, ele recebe a força e cria a realidade, pois ele é o representante do Poder Criador na Terra. Estes conceitos são muito poderosos e parecem simples. Mas, como se comportaria no dia a dia o verdadeiro mago do Tarô? Como resolveria seus problemas? Que sentiria? Ele ou ela seria tão calmo e seguro como o personagem da carta? Acompanhemos a Samara, uma grande Iniciada, que vai nos mostrar que uma grande maga pode parecer uma mulher comum. Será que existem alguma maga a sua volta e você ainda não percebeu?
Parte 1
Cansada, Samara finalmente pegou a mala e se dirigiu à sala de desembarque do aeroporto. Oito horas de atraso. Já passava da meia noite quando saiu, pisando firme sobre seus saltos de agulha. O pessoal da empresa estava esperando por ela. Um deles pegou a mala (grande diferença, tinha rodinhas!) enquanto o outro informava as novidades a Samara. A reunião do dia seguinte, que seria às oito da manhã, tinha sido transferida para as duas da tarde. Samara respirou aliviada, o último que queria era chegar cansada em uma reunião com o Secretário de Saúde. Ao parecer, as mentalizações feitas durante o voo tinham funcionado.
Quando chegou ao hotel passava da uma da manhã. Os funcionários da empresa se despediram e ficou combinado que passariam a buscá-la ás nove da manhã. Subiu ao seu quarto, tirou a roupa e foi direto para o chuveiro. Depois de dez horas de voo, era o mínimo que podia fazer. Vinte minutos embaixo da água a relaxaram o suficiente. Antes de ir dormir pegou uma pequena lâmpada a pilha e a deixou acesa sobre o criado mudo. Já que não podia acender nenhum tipo de fogo no quarto do hotel, tinha que substituir a tradicional vela pela pequena luminária a pilha. Bruxa moderna é outra coisa...
Acordou cedo, tomou outro banho, desceu para o café da manhã. Quando o motorista da empresa chegou, já estava revisando os e-mails. Foi até a sede da empresa. Queria ter todos os detalhes para a negociação da tarde. A reunião aconteceu antes do esperado: o Secretário de saúde chegou meia hora antes. Um velho truque que Samara conhecia bem. Ela já tinha previsto essa possibilidade. Deixou o homem esperando apenas dois minutos e depois entrou na sala.
O Secretário de Saúde tinha se preparado para uma negociação difícil, para as pressões daquela enorme multinacional... mas nada o tinha preparado para a beleza de Samara. Quando ela entrou na sala, o Secretário ficou imobilizado. Aquela mulher brasileira não andava: deslizava. Parecia uma gata caminhando. Seus movimentos eram fluidos, sua voz magnética. O “tailleur” ajustado mostrava um corpo perfeito, mas sem vulgaridade. O cabelo preto, encaracolado, chegava quase na cintura, dando um toque selvagem que contrastava com a elegância das roupas de grife que usava. A presença como um todo era irresistível e sem que os presentes percebessem, grande parte do arsenal mágico da Samara estava em funcionamento. Assim, a reunião transcorreu de forma agradável, os objetivos foram atingidos e, em meio a sorrisos e apertos de mãos, Samara conseguiu as licenças que sua empresa queria. No final da reunião o Secretário não resistiu e a convidou para jantar aquela noite. Samara agradeceu com um brilhante sorriso e disse que o convite era um privilégio enooorme, mas que iiiinnnfelizmeeente tinha que voltar imediatamente para o Brasil, mas quem sabe... da próxima vez... Apertou firmemente a mão do Secretário de Saúde e saiu, deslizando, deixando um coro de suspiros detrás dela.
A vida de Samara deslizava, realmente, como um rio fluido em volta dela. A poderosa Vontade da maga controlava suas reações e a realidade que a rodeava. Samara parecia (segundo as palavras de um grande Mestre da Tradição) “um arco sempre tenso, pronto para soltar a flecha”. Ou como dizia Crowley, ela “calculava bem a Fórmula do Caminho”. Entretanto...
Na viagem de volta, deitada na confortável poltrona da primeira classe, Samara não estava tranquila. Algo queimava no seu estômago. Algo não estava bem. Algo que ainda não podia identificar. Há várias semanas, Samara sentia que alguma coisa estava escapando da percepção dela, mas não conseguia saber o que era. Talvez fosse hora de fazer uma revisão da situação. No final das contas, tinha dez horas de vôo até chegar ao Brasil...
Seu trabalho era ótimo. Era diretora de uma multinacional na área de saúde. Já tinha quase cinco anos no emprego e tudo funcionava bem. Não existiam diferenças nem com os colegas nem com o presidente da empresa. O trabalho era pesado, mas Samara dava conta dele tranquilamente. E ainda tinha tempo para ajudar as pessoas através de doações e projetos de desenvolvimento de jovens. O trabalho ideal! A família? Tudo em ordem. Amor? Equilibrado. Depois do seu divórcio, Samara não tinha casado novamente. Sempre tinha algum “rolo”, mas nunca tinha escolhido uma pessoa permanente. Em parte porque era muito difícil seguir o ritmo de vida dela, em parte porque não tinha aparecido a pessoa adequada... Não acertava ver o que estava mal. Se era que algo estava mal... Fechou os olhos e dormiu o resto da viagem.
A chegada foi rotineira: o motorista da empresa estava aguardando. Levou Samara à casa dela, num condomínio de luxo de Alphaville e disse que passaria no dia seguinte para levá-la à empresa. Samara pode descansar, finalmente. Foi direto para a banheira de hidromassagem. “A vida é uma banheira de hidro” pensou, enquanto se submergia na água quente. “Che-ga de preocupações, pelo menos por esta noite...”. Ouviu o celular, o tom que indicava a chegada de mensagens. Ignorou totalmente. Saiu da banheira meia hora depois e foi para o quarto. Revisou o celular e achou duas mensagens, uma do Leandro e outra da Brigitte. Quando podiam se encontrar? “Lindos... os dois...” pensou com ternura. “Quando tenho uma hora... duas horas?” a vida estava muito agitada. Porém tinha que criar um tempo para eles. A presença dela era muito importante na vida deles. Mandou uma mensagem para cada um, avisando que tinha chegado e que ligaria para marcar um encontro. E algo continuava a deixá-la inquieta. Acendeu um incenso e foi dormir.
A chegada na empresa foi normal. A agitação corriqueira, o trabalho acumulado (por que trabalho acumulado? Ela não estava a trabalho nessa viagem?), as reuniões... Marta, sua secretária, chegou à sua sala de repente.

“David quer ver você, assim que possível”.
“Agora?” Samara estranhou o pedido.
“Assim que possível” repetiu Marta, e foi embora. Samara suspirou, enquanto ordenava uma pilha de relatórios que estavam na sua escrivaninha. “Todo mundo está estressado nesta empresa” pensou. Levantou, foi no lavabo e retocou a maquiagem. “Você não vai à sala do presidente da empresa sem conferir a maquiagem antes” costumava dizer às gerentes. Com os homens não tinha esse problema. Saiu da sua sala com passo elástico e, atravessando o corredor, chegou à sala do David. Luciana, a secretária da presidência, sorriu para ela e fez um sinal de que podia passar. Entrou sem bater. David e ela eram amigos há muito tempo e não era a primeira vez que trabalhavam juntos.
Ele estava em pé, olhando pelas enormes janelas do escritório. Sorriu para ela, mas parecia preocupado. Isso era raro, pois David, um homem com quase 70 anos, preocupava-se com pouca coisa. Antigo herói de guerra, contava-se que uma vez, sendo capitão, tinha resgatado sua unidade, que tinha sido aprisionada pelos inimigos. Outra pessoa teria fugido feliz por ter salvado a vida, e teria abandonado seus homens para trás. David não. Voltou armado com uma pistola e um rifle, atirando feito louco e conseguiu liberar os soldados. Nessa operação levou cinco tiros nas costas e dois no peito. Para quando seus soldados conseguiram tirá-lo da fortificação inimiga, numa poça de sangue, parecia que David ia morrer, sem sombra de dúvida. Naturalmente, não morreu. Nem nessa noite nem nos anos seguintes. Galgou os degraus do mundo empresarial com a mesma velocidade e garra com que liberou seus homens do inimigo. Era famoso porque não deixava ninguém para trás. Tinha muitos amigos... e muitos inimigos também.
“Estou indo embora” a frase foi direta, como sempre era. Nem comprimentos, nem perguntas sobre a viagem. Direto ao ponto. Samara sentiu que o chão falhava sob seus pés. Sentou-se numa das enormes poltronas, enfrente da escrivaninha. David sentou do outro lado, na famosa Cadeira do Presidente. Seguia calmo e olhou Samara fixamente até ela conseguir responder.
“Que aconteceu?”
“A crise. A empresa finalmente foi vendida para um conglomerado suíço”.
Não adiantava argumentar, nem fazer comentários sobre a situação. David não perdia tempo com essas coisas. Ele preferia resolver as situações, não se perguntar o porquê das coisas.
“O que é que você vai fazer?” quis saber Samara. Da resposta dele dependia muita coisa... como sempre.
“Vou para Copenhague, como diretor geral de uma linha de produção de quimioterápicos. Não é tão prestigioso como este cargo, mas é um trabalho tranquilo e com muitas mais regalias...” finalmente David sorriu.
“Quando?” quis saber Samara.
“Começo na semana que vem”. Samara sentiu um aperto no peito. Menos de uma semana para resolver tudo!
David olhou para ela e disse:
“A pergunta é: você vem comigo?”

Pronto! A tranquilidade da Samara acabou! Na próxima postagem veremos como uma maga enfrenta esta situação... Espero vocês! Um abraço

Arcano 0 - O Louco

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O Louco é chamado às vezes de Arcano sem número. Tem vários significados e no Tarô da Iniciação é considerado a representação do ser humano antes de passar pelos outros Arcanos que vão modelar sua personalidade. Ele parece vir do nada e ir para o nada. Em realidade, na maior parte das vezes o Louco é produzido por uma quebra nas nossas vidas. Nosso mundo desaba à nossa volta e somos impelidos por uma força interna, irresistível, na busca de novos horizontes, de uma realidade completamente diferente. Sem ter mapa nem guia, saímos para a Vida para construir um mundo novo, totalmente diferente daquele ao qual estávamos acostumados. Esta fase costuma ser dolorosa até chegar ao momento da libertação. A partir daí, a energia do Louco toma conta de nós e nos impulsiona em direção a novos horizontes. Nunca é fácil, mas a energia deste Arcano misterioso costuma ser muito benéfica, pois através dela vamos descobrir habilidades e recursos que nem imaginávamos que tivéssemos, assim como também nossa coragem. Na próxima história será a vez da Viviane, uma Iniciada nova e cheia de boas intenções, de quebrar seus limites e encarnar as energias do poderoso Arcano Zero, O Louco.

E assim, a briga número mil com Júlio acabou com ele indo embora e batendo a porta. Viviane se jogou no sofá, chorando. Não sabia o que queria, não sabia o que estava indo mal há tanto tempo... Quanto tempo? Não podia lembrar. Em algum momento do passado tinham começado a brigar e brigar sem parar. Brigas por coisas mínimas, comentários ácidos na frente dos amigos, pequenas vinganças diárias... mas que se dissolviam e compensavam numa noite de amor. Mas essas noites começaram a ser cada vez mais escassas... igual aos gestos de carinho no dia a dia... Viviane começou a ver mil defeitos no seu namorado e, é claro, ele devia estar vendo mil defeitos nela. Entre as lágrimas Viviane olhou para a mesa de jantar, com os pratos e as travessas sem tirar. A briga tinha começado durante o jantar e este nunca tinha terminado. Júlio tinha ido embora falando coisas horríveis. E aqui estava ela, chorando feita Madalena, sem saber o que fazer. Pensou em chamar alguns dos seus mestres, mas sabia o aconteceria: Samara seria firme e Vittorio compreensivo. Mas eles iam dizer a mesma coisa que tinham dito para ela durante os cinco anos de relacionamento com Júlio: foi uma escolha errada.

Decidiu mudar de ares e ir à padaria para ver se achava algo doce (claro que ia achar, doce é o que mais tem numa padaria!). Foi caminhando, era cedo e o bairro era seguro. Voltou com quatro caixas de bombons. Devorou uma no caminho (terminou o último bombom na porta do prédio). Ao entrar no apartamento, o inferno estava aguardando. Não, Júlio não tinha voltado, mas voltou a se defrontar com a mesa de jantar e, pior, no fundo da ampla sala viu a escrivaninha com uma pilha de relatórios que tinha que entregar no dia seguinte. Não deu outra: devorou a segunda caixa de bombons, enquanto fitava os relatórios e aguardava o Júlio voltar. Mas o Júlio não voltou e os relatórios continuaram encima da escrivaninha. Depois de um tempo, com um tremendo esforço (e uma culpa gigante pelos bombons devorados), foi até eles e tentou fazer alguma coisa. Mas nada deu certo. Não tinha cabeça para isso agora.

Voltou para a mesa, levantou o que tinha sobrado do jantar e jogou tudo na pia da cozinha. Esperou um bom tempo acordada o Júlio voltar. Não sabia se pedir desculpas ou continuar com a briga. Mas o Júlio não voltou desta vez. Viviane tomou dois calmantes e foi dormir. No final das contas, no dia seguinte tinha que entregar esses relatórios.

Acordou, tomou banho, café da manhã e nada do seu namorado aparecer. Sentindo um aperto no coração, foi até o serviço. Assim que chegou, o gerente de recursos humanos a chamou na sala dele. Convidou a Viviane para sentar e, com certo incômodo, comunicou que, devido a problemas financeiros, a empresa estava fazendo cortes e... O resto Viviane não ouviu. O mundo acabava de desabar em volta dela. Conseguiu manter a compostura (o gerente foi muito amável, fez questão de dizer que ela tinha sido uma funcionária exemplar e que a empresa lamentava muito ter que prescindir dos seus serviços, e que, claro está, eles pagariam todos os direitos, etc., etc., etc.), se despediu com classe, pegou suas coisas e voltou para casa. Lá se foram as duas caixas de bombons que tinham sobrado da noite anterior. Júlio nem tinha dado sinal de vida e, a essa altura do campeonato, Viviane não estava nem se importando com isso. Dirigiu feita uma louca até a casa da mãe dela e ai sim se deu ao luxo de desabar. Chorou, como dizia a música, até ficar com dor dela mesma. Depois dormiu, muito, muito, muito. Lá pelo final da tarde a mãe chegou com um chá de camomila quentinho e um recado do Júlio. A Viviane tomou o chá. Ficou falando com a mãe até altas horas e voltou a dormir. Depois de cinco anos de briga com o Júlio e tentando se equilibrar num emprego totalmente neurótico, tudo tinha ruído. Agora ela tinha tocado o fundo do poço e, a partir desse momento, seu treinamento já estava funcionando. Algo fez um “clique” dentro dela.

Acordou no dia seguinte, ligou para a mestra dela e marcou uma reunião na empresa onde Samara trabalhava. Foi na reunião essa mesma tarde. Depois ligou para Júlio, para avisar que ia passar buscar suas coisas no dia seguinte. Ele pareceu aliviado (pelo menos ela achou isso). Ligou então para o Vittorio e marcou um encontro em um café. Chegou bem cedo. Ele chegou no horário marcado, deu um beijo nela e sentou.

-Vou embora –disse Viviane, e começou chorar. Ele segurou a mão dela até a ela se acalmar. Ela contou então o que estava acontecendo e que tinha pedido emprego para Samara.

-Ela me arrumou um emprego de representante da empresa onde ela trabalha, vou trabalhar na praia- disse Viviane. E aí conseguiu sorrir, por fim-. Vou começar tudo de estaca zero... mas estou com medo...

-Você não precisa ficar com medo –respondeu Vittorio, curtindo calmamente um chá-. Samara sempre cuidou bem de você. Esse emprego deve ser o que ela acha melhor no seu caso. E você é uma menina forte e cheia de recursos, vai se dar bem..

-Até agora não foi assim, não é? Meu namoro fracassou, fui demitida, aumentei vinte quilos! Também, com tanto chocolate...

-Você escolheu o caminho da Dor. É um caminho tão respeitável como o caminho do Amor.

-E vocês devem estar desapontados comigo... –disse ela. Baixou os olhos e lembrou-se das vezes que eles tinham ficado em desacordo com ela. A vez que ela chegou com um exemplar da “Arte da Guerra aplicada aos relacionamentos” e Vittorio tinha mostrado claramente seu desagrado, ou quando falou do antigo emprego para Samara e ela disse que, por mais que o salário parecesse ótimo nesse momento, aquilo era um beco sem saída. Sempre tinha feito tudo ao contrário dos conselhos dos seus mestres... Mas Vittorio estava sorrindo agora.

-Vivi, você tem que entender que como seus mestres, amamos você e respeitamos suas decisões. Estamos orgulhosos de você, mesmo que às vezes você não siga nossos conselhos, porque você é uma mulher forte e de princípios firmes. Sabemos da sua dor agora, e sabemos que você vai se recuperar. E nós vamos estar sempre aqui, mantendo um olho em você. Pode nos chamar quando precisar, temos mil canais de comunicação, físicos e não físicos –sorriu ele-. Somos como as estrelas, Vivi. Iluminamos seu caminho suavemente para que você não tropece e caia. Podemos te orientar, mas igual que os antigos navegantes, quem decide o rumo é você... O que é que você vai levar? –ele mudou de assunto bruscamente. Viviane pensou um pouco.

-Nada –disse por fim-. Roupa nova, que vou comprar amanhã. Meu pai e meu irmão vão buscar minhas coisas no apartamento do Júlio. Vou levar o que caiba numa mala pequena... e um gato...

-Um gato? –sorriu Vittorio.

-Pois é, minha mãe me deu um gatinho branco. Acho que estou carente, porque aceitei de cara. Ele é fofo!

-Uma bruxa com um gato branco... essa é boa! –Vittorio começou a rir. Falaram muito essa tarde, de muitas coisas. Despediram-se com um abraço apertado e Viviane foi para casa da mãe mais tranquila. Explicou a situação para a mãe dela, que ficou um pouco triste, mas se animou só de pensar que Viviane ia estar bem. “E sempre posso passar uns dias com você num lugar bonito” disse a mãe. Viviane a abraçou, chorando.

Três dias depois estava dirigindo em direção à praia, para uma nova cidade, para um novo emprego, para uma nova vida. Tinha decidido viajar de noite (se sentia mais cômoda dirigindo à noite, na estrada. Achava isso uma situação mágica) e o gatinho dormia no banco do lado. Não sabia o que ia acontecer, não conhecia a ninguém nessa cidade e o serviço era novo. De repente sentiu que as lágrimas caiam novamente dos seus olhos. Mas desta vez não eram lágrimas de tristeza: eram de alívio. Sentia o coração leve e uma expectativa ia tomando conta de todo seu ser: a Vida, com todos seus potenciais, estava se abrindo na frente dela. A Dor ficava momento a momento para trás e o futuro mostrava infinitas possibilidades. Os perigos não a preocupavam mais. Agora dependia da sabedoria dela escolher as melhores cartas e ser feliz.

Acelerando o carro entrou na noite, sempre guiada pelas estrelas, em direção a um novo amanhecer.

Será que a Viviane tomou a decisão correta? Poderia ter feito algo diferente? O que é que você teria feito no lugar dela? Se você achar que o final poderia ter sido diferente, mande um e-mail para mulheresapaixonantes@tarotdatransformacao.com.br.

Por onde começamos?

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Bem, quase todo mundo quer saber onde foi que o Tarô originou-se.

Boa pergunta...
Sabemos muito pouco, quase nada, sobre isso. Existem aqueles que opinam que a origem remonta-se ao antigo Egito, mas nunca foi achada nenhuma pintura ou escultura nas ruinas daquela grandiosa civilização que fosse claramente identificável com os arcanos do Tarô (embora algumas figuras arquetípicas possam ser identificadas com ele. De fato, temos uma variante do Tarô de Marselha que é baseada na mitologia egípcia).
O Tarô do Antigo Egito é de grande beleza, mas não é o esperado tarô original. Ele é uma adaptação moderna ao Tarô de Marselha, que usa os deuses egípcios adaptados aos personagens desse tarô particular. A simbologia é , entretanto, muito boa. Você pode obter muitas informações só meditando sobre as cartas, que são também de uma beleza impressionante.
Mas seguimos sem saber onde apareceu o tarô...

Escrever sobre o Tarô...

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Parece difícil escrever sobre este tema. No final das contas, com todo o que foi dito até agora mais o material que você pode achar no Google, o que podemos dizer de novo sobre o Tarô?

Algo que não tenha sido dito? Difícil. Estou num lugar especial: o Tarô em Campinas tem uma longa tradição. Nesta cidade existem excelentes tarólogos (como meu mestre).
Uma releitura? Possivelmente...:)
Uma visão desde um outro ângulo? Gostei mais dessa...
Vamos ver se me inspiro no próximo post...:)

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